Thiago Barletta, 30 anos, nasceu e cresceu em Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro. Entre anúncios de corte de árvore, leitura de mão e promessas de “trago seu amor de volta em 30 dias” pintadas nos muros, aprendeu a enxergar beleza no que muitos consideram banal. Hoje, leva essa estética para obras que misturam poesia, política, memória afetiva e referências atuais.

 

“O subúrbio é a cara do Brasil. Todo mundo cresceu com esses símbolos, mas quase ninguém coloca isso como arte. Eu coloco”, diz. Essa vivência aparece na firmeza dos traços, nas escolhas de cor e na simplicidade direta das tipografias.

 

A virada veio quando decidiu mostrar seu trabalho nas redes sociais. “Sempre fui muito de internet, muito cara de pau. Quando comecei a botar a cara, as pessoas começaram a comprar a ideia. Foi aí que eu entendi: eu sou artista”, lembra.

 

Sua trajetória ganhou força com a participação na exposição coletiva Arquivo da Norte, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio. A mostra reuniu artistas suburbanos e colocou crianças e adolescentes em contato com a produção feita dentro do próprio território. “Se eu tivesse tido contato com arte mais cedo, acho que teria amadurecido mais rápido. Ver essa molecada ali foi um dos pontos altos da minha carreira.”

 

Em dezembro de 2025, Thiago se juntou ao produtor musical Carlos do Complexo e, juntos, iniciaram a Futuro Suburbano. O resultado foi uma exposição de artes plásticas acompanhada de uma imersão sonora que colocou cerca de 600 pessoas em contato com arte no centro do Rio de Janeiro.

 

O trabalho de Barletta nasce dos símbolos do cotidiano: os santos da rua, o diálogo popular, a espada de São Jorge no quintal. São imagens acompanhadas de mensagens curtas, capazes de atrair o olhar antes mesmo de convidar à reflexão. “Não é porque a mensagem é social ou política que precisa ser sombria. Eu quero que as pessoas se sintam atraídas e, depois, percebam a força do que está escrito.”

 

Agora, o artista amplia seu diálogo com outras expressões culturais. “Quero estar no inconsciente coletivo do Brasil. Quero que as pessoas olhem e sintam que já viram aquilo em algum lugar, mas que também entendam a mensagem. Se eu conseguir mudar um pouco o lugar de onde eu vim, já valeu.”